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domingo, 21 de junio de 2009
Poema dos olhos da amada
Oh, minha amada
Que os olhos teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus
Oh, minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus
Oh, minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas eras
Nos olhos teus
Ah, minha amada
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus
Vinicius de Moraes.
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Soneto do amor total
Amo-te tanto meu amor … não cante
o humano coração com mais verdade…
amo-te como amigo e como amante
numa sempre diversa realidade.
Amo-te enfim, de um calmo amor prestante
e te amo além, presente na saudade
amo-te, enfim, com grande liberdade
dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente
de um amor sem mistério e sem virtude
com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim, muito e amiúde
é que um dia em teu corpo de repente
hei de morrer de amar mais do que pude.
Vinicius de Moraes
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domingo, 7 de junio de 2009
Soneto de Separação
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
Vinicius de Moraes.
De repente la risa se hace llanto
silencioso y blanco como bruma
de las bocas unidas sale espuma
y de las manos dadas el espanto.
De la calma de pronto surge el viento,
que en los ojos borró la última llama,
y la pasión pare el presentimiento,
y del momento inmóvil nace el drama.
De repente, no más que de repente
se torna triste cuanto fuese amante,
desolado quien fue resplandeciente,
se hace el amigo próximo distante,
se hace la vida una aventura errante,
de repente, no más que de repente.
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